Estranheza (Ricardo Braga)
João se levanta sempre às sete e meia, toma seu café, com dois dedos de leite e uma colher cheia de açúcar, come duas fatias de pão de forma com pouca manteiga. Um banho rápido, sapatos bem lustrados - pretos - e a camisa para dentro da calça. Às oito e meia sai de casa para o trabalho.
João mora em um bairro comum, com algumas árvores e muitos prédios, o verde se torna pálido no cinza empoeirado, um tom clássico e urbano. Porém o conjunto não é surpreendente após alguns dias. O tempo nos leva a aceitar a estranheza que imerge do cotidiano com um leve ar de cômico.
Mas nesta ensolarada terça-feira havia algo de diferente entre as árvores. Uma senhora de casaco de pele e chapéu aveludado, ambos de um vermelho berrante, muito velhos e surrados; a bainha era encardida e na roupa tinham diversos rasgos e buracos. Usava uma longa saia preta, junto de uma camisa com mangas compridas e da mesma cor. Para completar o rosto totalmente branco pelo pó-de-arroz. Uma figura inusitada e que não parecia sentir o calor de Janeiro.
Primeiramente o que chamou a atenção de João foi o comentário sobre a "velha maluca do outro lado da rua". João estranhou e olhou com rapidez para ela. Se perguntava como ela aguentava o calor e aonde teria arranjado aquelas roupas. Deixou para lá pois quase esqueceu de fazer sinal para o ônibus.
De noite quando voltou do trabalho ela ainda estava lá, sentada, como se não tivesse se movido, como se nem existisse. Tentou reparar melhor nela, mas o horário, a falta de claridade e, no fundo, a falta de interesse verdadeiro pelo que não lhe exercia influência.
Às oito e meia da manhã ela continuava ali, haveria dormido ali, ou voltara para lá de manhã? As mesmas roupas estranhas e quentes, o mesmo ar de inércia e solidão. Dessa vez olhou com calma para ela, o rosto magro e com rugas evidenciava a idade, o corpo magro e as roupas sujas caracterizavam a pobreza. Percebeu que ela olhava para ele com um ar de piedade. Ele sentiu culpa, desviou o olhar e foi trabalhar.
Na volta tentava desviar o olhar fixo dela, mas não conseguiu evitar a surpresa quando ela lhe disse: "Boa noite". Virou assustado, cruzaram um olhar de estranheza, mas como se a partir d'ali se conhecessem.
Entrou no prédio pensando em como tudo aquilo era estranho, porém no dia seguinte lhe deu 'Bom dia", da mesma forma como fazia sinal para o ônibus todos os dias.
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