É isso, espero que gostem. Deixem comentários (mesmo se for para falar que não gostaram).
A morte do Beija-flor.
Quando somos crianças temos a completa noção de que entendemos absolutamente tudo. É fácil resolver os problemas que surgem e as diferenças - quase sempre com um par-ou-ímpar. Porém, apenas uma coisa não fazia sentido. Os adultos.
Adultos se estressam por tudo, gritam com quem não conhecem e às vezes mesmo com quem mais gostam! Bebem coisas nojentas e amargas, fumam longos canudos malcheirosos, usam palavras fúteis, frases longas e complexas orações subordinadas. Parecem-se muito com as crianças, mas se ofendem quando ouvem a comparação. As crianças, por mais estranho que pareça, queriam ser adultas ao mesmo tempo em que eram crianças, porém estas ainda têm em si todo o conhecimento, todo o sono, toda a disposição e um senso de justiça aguçado que às vezes não compreende a misericórdia, no entanto tudo entendem da solidariedade, especialmente com outras crianças.
Havia duas coisas que eu amava quando era criança: a natureza e a imaginação. Ainda as amo, mesmo que com menor intensidade, porém as amo muito mais como lembranças de um verão que me fora gostoso. Da natureza amei tudo que fosse grande e também tudo que fosse pequeno; amei a ausência de moral, amei o caos, amei a desordem e a absoluta falta de estética. Mas acima de tudo amei todos os animais que voavam. Como disse, amei também a imaginação, e voar era o inalcançável absurdo humano. Voar com meu próprio corpo, cruzar qualquer horizonte, de um infinito ao outro. Voar era acima de tudo encontrar-me na natureza.
Entre todos os animais que voam o beija-flor sempre foi o que mais me chamou a atenção. Eu daria ao beija-flor todas as minhas riquezas se elas lhe fossem úteis. É o seu movimento graciosamente calmo e as suas cores límpidas, escuras, sujas, claras, foscas e sem graça que me comovem. É no seu passeio diário por entre as flores que vejo o pleno exercício do amor. Todos os dias cortejando suas amantes - entre novos e velhos amores - e satisfazendo-se dentro dos seus amores-internos, sem nunca lhes tirar a vida nem as esperanças, sem lhes trazer a tristeza ou a solidão, mas apenas a saudade e a certeza de que se algo se foi, foi-se para abrir espaço para algo ainda maior. Um vazio.
Nos céus o vazio também é formado. E quando fui criança de cidade grande aprendi que as estrelas são os desejos realizados. Todos os dias posso ver alguns metros do céu através da janela do meu apartamento, metros insossos e vazios. Mas os céus diferem e muito dos beija-flores.
O vazio que o colibri deixa é a certeza de que não se é nada para a vida. A certeza de que dela nada se tira, mas também a certeza de que nela deixamos tudo o que fomos e fizemos. Cada relação do beija-flor é um ato em que ele se doa mais ao mundo do que o quanto ele lhe tira. O vazio do colibri é a única coisa que ele, como vida, pôde me deixar. Saber que mesmo sem amor ele ama, que mesmo sem luz ele resplandece, que mesmo sem moral ele é bom, que sem ao menos nem saber ele vive.
O amadurecimento é muito rápido e muitas vezes radical e dramático, tornando-nos pessoalmente neutros, ou ainda egoístas, ao invés da natureza que é impessoalmente neutra.
Hoje recebi a notícia de que o meu beija-flor morrera, e não pude chorar mais do que uma vez. Ele me deixou um vazio que poderia me fazer sentir... Mas sem ele o que haveria para sentir?
Agora só havia meus lábios, minhas mãos soltas, as palavras presas e uma saudade de não-sei-o-quê. Saudade de ver a natureza? de imaginar? de viver?
Saudade de não envelhecer. É possível ter saudade do que é impossível se ter? (Talvez seja uma das únicas maneiras). Aquela esperança/saudade que me revela o corpo nu, o avesso, o repugnante e o nojento, que mostra a minha carne podre... Mas que é tão bela, não a podridão da carne, mas a revelação, a exposição que o beija-flor me deu.
Talvez não queira mais ser criança, pois hoje vejo que não entendo nada. As palavras que escrevo são caóticas, sem beleza alguma, mas são naturais. São da minha natureza imaginativa, é o que me faz ser humano. A boa notícia é que meu beija-flor não morreu. Não se enganem, ele morreu, mas ainda existe. Existe nos meus cabelos, nos meus pulmões, no meu sangue, na minha pélvis, nos meus membros, no que toco, no que sou, no que quero ser e no que não posso ser.
Talvez amanhã eu beba, ou comece a fumar, ou xingue alguém, ou simplesmente olhe meus metros de céu diários e à ele acrescente estrelas e à vida nada. Pois tudo que vos tiro, espero dar mais. É que quero amar o mundo todos os dias. É que não quero ser nada se não minha natureza-ficção. Pelo menos não hoje.
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No dia 04/10/12 eu anotei isso aqui no bloco de notas do meu celular, e eu acho que tem bastante a ver com o texto (está meio incompreensível porque eu estava indo dormir e tentei não modificar muito desde então).
É possível perdoar a saudade?
É possível perdoar a saudade?
A saudade que se reflete no balanço solitário do corpo, do perfume já fraco que resta nos lençóis, da solidão e do abismo sem fim que é se encontrar sem ninguém.
Não é nenhuma necessidade do outro. Não é amor pela utilidade do outro nem pela minha utilidade. É saudade pela existência do outro que não se faz mais presente entre meus braços, entre nossas pernas.
Não importa o que já foi dito sobre saudade. Saudade é existir sem estar com quem formava o eu já subjetivamente completo. [Saudade] é existir sendo sem ser.
Gostei muito, Ricardo! Me lembrou esse meu texto, como se sobre a mesma coisa com um ponto de vista diferente :)
ResponderExcluirhttp://leaodarosa.blogspot.com.br/2012/02/contas-de-vidro-substituiram.html
Li seu texto e achei ótimo! Até deixei um comentário haha.
ExcluirObrigado pelo comentário!!