quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A poética zangada.

Texto fresquinho, idealizado no ônibus (essa materialização da mobilidade do pensamento e da mobilidade no espaço, por vezes tão precário, por vezes tão caro e com o grande sonho de ser de uso livre) e criado graças à poesia diária do amar sem objeto, da filosofia, da música, da literatura, da amizade, sei lá do quê mais.


A poética zangada.
Imagine-se percorrendo o espaço, melhor, imagine-se percorrendo o céu, esta imensidão poética do espaço aberto. As possibilidades de enxergar tudo do alto sem perder o infinito dos detalhes, os cheiros e cores que advém do céu devem ser espetaculares. O cheiro amarelado da poeira urbana, o vento e suas curvas de lembranças e esquecimentos. São as golfadas de ar em meu corpo imensamente nu que nos farão lembrar do que ainda está sendo, do que ainda está acontecendo. A extensão do corpo não se perde no espaço aberto, sentimo-nos em intensidade, extensa intensidade, intensa extensão.
Imagine-se minúsculo agora. Do tamanho de um zangão, precisamente um zangão, sem ferrões ou órgãos produtores de mel, dotado de sentidos espetaculares, dotado de uma visão excelente e um olfato, um olfato!, espetacular. Que incrível seria retomar este encontro com o olfato, nos dobrarmos aos cheiros, aromas, fedores da mesma forma que nos dobramos sobre o que é visto. Enfim, que incrível poderia sentir o entorno com o resto do corpo - corpo imensamente nu, retorno a dizer.
Não sintam inveja do zangão, sigam seu exemplo: o corpo do zangão é desenvolvido para o amor. Seus sentidos são voltados para a cópula, intensamente desenvolvidos para a prática do amor. Imagine-se no momento derradeiro: você zangão, independente do fato de ser o zangão do sexo masculino, encontra com o corpo (no corpo, portanto) a sua companheira, independente do sexo deste. Tudo isto ocorrendo na imensidão poética do espaço aberto! Encontrado o companheiro, inicia-se um longo e criativo processo de aproximação, de interação, de entrega.
Imagine-se zangão e imagine o outro também zangão, ambos sujeitos e objetos de si, do outro, do meio, da interação que ocorre no agora, neste agora indeterminado. Você voa pelo espaço em círculos incertos, nada é esquadrinhado, tudo vai ocorrendo ao mesmo tempo, em frações minúsculas e intensas de tempo e de espaço (de espaço-tempo). Consuma-se o amor. Fatalmente a morte acontece para o zangão alguns momentos depois.
Não pare de imaginar que ainda somos zangões. Imagine que estaremos a sós no céu, nós dois imensos, vocês dois intensos, todos nós sempiternos, envoltos nisso tudo que é o espaço aberto, mas nunca vazio. Imagine a sensação que é se entregar num amor intenso! Não pense na morte após o sexo, não pense em metáfora para a vida que se cria da morte, não pense na reprodução pura e simples. Pense no sexo. Pense no corpo e no que se sente, na experiência do prazer absoluto imbricado no último suspiro que foi, que é, que está sendo se entregar. Desejo, em última instância, que é produto do entregar-se imensamente nu, na imensidão poética do espaço aberto, no intenso-extenso tamanho minúsculo que temos. Imagine-se nas curvas do vento, pois não é neste momento puntiforme da morte que se reduz a minha vida. É a própria vida experimentada que me estende a existência, entendida como processo e como devir, eterna criação, impossibilitada de qualquer redutivismo.
O amor é irredutível e o zangão bem sabe disso. Imagine-se zangão, pois como ele mesmo disse: depois do amor que se auto entrega (que nada mais é que o amar) a morte acontece alguns momentos depois. São nestes momentos depois que se vive mais intensamente, e talvez a extensão do momento seja proporcional à intensidade do momento. Imagine-se (crie-se) eterno, zangão.

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